Quando a clínica publica material sobre doenças, sintomas ou procedimentos
O artigo educativo entra na definição de propaganda médica
O art. 1º §2º da Resolução CFM 2.336/2023 define propaganda médica como o ato de divulgar assuntos e ações de interesse da medicina. Não há exceção para conteúdo educativo, para blogue ou para material gratuito. O mercado trata o inbound como a saída que dispensa a discussão de publicidade; a norma trata o mesmo material como publicidade desde a primeira linha.
A consequência prática é de estrutura, não de tom: as informações do art. 4º — nome, número de CRM acompanhado da palavra MÉDICO, e especialidade com RQE quando registrada — precisam estar na página principal do perfil ou do site, conforme o art. 6º. É um trabalho de uma vez, barato, e é o que separa um acervo que pode crescer de um acervo que vai precisar ser revisto inteiro depois.
Quando a clínica reúne médicos com e sem título de especialista registrado
Quem assina limita o assunto que a página pode tratar
O art. 11 I veda ao médico divulgar, quando não especialista, que trata de sistemas orgânicos, órgãos ou doenças específicas — porque isso induz confusão com a divulgação de especialidade. Uma pauta organizada por sintoma e por doença, que é o desenho padrão do inbound de saúde, esbarra nisso quando quem assina não tem o RQE correspondente.
A pauta passa a depender do quadro clínico da casa, e não do volume de busca. Na prática isso muda a ordem do trabalho: primeiro se levanta quem tem qual RQE registrado, depois se decide o que cada um pode assinar, e só então se escolhe o assunto. Onde não há especialista para o tema, o caminho costuma ser tratar o serviço e a jornada de atendimento em vez da doença — e essa é uma decisão de conformidade, não de criatividade.
Quando a pauta nasce de volume de busca por sintoma
O gancho que a busca premia é o que a norma chama de sensacionalismo
O art. 11 XVI veda portar-se de forma sensacionalista, e o §2º "e" define sensacionalismo como veicular em público informação que possa causar intranquilidade, insegurança, pânico ou medo — mesmo diante de fatos verdadeiros. O conteúdo que mais atrai clique em saúde é exatamente o que descreve o sintoma como sinal de algo grave, e a alínea o alcança de frente.
O material que sobra é mais chato de otimizar e mais útil de ler: o que a pessoa deve observar, quando procurar avaliação, como é a consulta, o que muda entre uma conduta e outra. Perde-se o título alarmante e ganha-se um acervo que não precisa ser retirado do ar. Vale dizer o custo em voz alta: a curva de leitura sobe mais devagar do que a de quem usa o gancho, e a clínica precisa saber disso antes de começar, não no terceiro mês.
Quando parte do plano envolve artigo em portal, revista ou veículo de terceiro
O mesmo texto muda de estatuto conforme onde é publicado
É a distinção que a norma faz e que quase nenhum plano de conteúdo respeita. Pelo art. 13 III, nas redes sociais próprias o médico pode fazer publicidade para formar, manter ou aumentar a clientela, e também dar informação de caráter acadêmico ou educativo. Já o art. 10, ao tratar de entrevistas e da publicação de artigos ao público leigo, obriga o médico a portar-se como representante da medicina e a abster-se de conduta que vise angariar clientela — e o §1º veda, nessas ocasiões, divulgar endereço físico ou virtual e telefone, salvo os dados do art. 4º.
O convite ao final do texto, que é a peça central de qualquer operação de inbound, depende de onde o texto está. No site e nas redes da clínica, ele cabe; num artigo publicado em veículo de terceiro, não. Uma operação séria trata isso como duas trilhas com regras próprias desde o começo — e não como um detalhe a resolver quando a assessoria conseguir o espaço.
Quando o material pretende mostrar resultado de técnica ou procedimento
A imagem de paciente é permitida, e vem com texto obrigatório junto
O art. 14 permite o uso de imagem de pacientes ou de banco de imagens com finalidade educativa, e é mais permissivo do que boa parte do mercado supõe. Mas o inciso II condiciona a demonstração de resultados a princípios escritos: qualquer uso de imagem deve vir acompanhado de texto educativo com as indicações terapêuticas, os fatores que influenciam possíveis resultados e a descrição das complicações. Publicar o par de fotos sem esse texto é o erro mais comum e o mais visível de todos.
Isso torna a peça de imagem cara — não em produção, em redação. Cada demonstração exige um texto que a maior parte das agências não sabe escrever e que a clínica precisa revisar. O efeito colateral é bom: como o custo real aparece, a decisão sobre quantas dessas peças fazer passa a ser tomada com o número na mesa, em vez de virar uma promessa de calendário que ninguém cumpre.